Floriano Martins

(Fortaleza, 1957). Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001, a convite de Soares Feitosa, criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia.

Algunos Livros publicados
Cinzas do sol (poesia). Mundo Manual Edições. Rio de Janeiro. 1991.
Sábias areias (poesia). Mundo Manual Edições. Rio de Janeiro.
1991.
El corazón del infinito. Trés poetas brasileños (traducción de Jesus Cobo)
entrevistas). Cuadernos de Calandrajas.
Toledo, Espanha. 1993.
 Nós/Nudos (25 poemas sobre 25 obras de Paula Rego), de Ana Marques Gastão. Editora Gótica. Lisboa, Portugal. 2004. [tradução]
Un nuevo continente (Antología del Surrealismo en la Poesía de nuestra América). Ediciones Andrómeda. San José, Costa Rica. 2004.
Estudos de pele (poesia). Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.

 

 

POEMAS

de

Floriano Martins

(traducción al español de Jorge Ariel Madrazo)

 

 

 

RAQUEL

 

 

Até quando posso confiar em tuas palavras?

Me pedes que busque a salvação em teu nome,

que me desfaleça, aguarde, vagueie, me deixe

esquecer por todos. Iludo-me crendo na visão

de teus encantos, e atenta sigo teus preceitos.

Para os desenganados, devo abrir covas largas.

E entrego meu corpo a todos que o necessitem.

Uma vez mais padeço e aguardo e me torno

nada, uma réstia, uma sombra perturbada,

até que me canse e indague pelos sete prantos

de minha alma exânime: um dia me consolarás?

Abro a mão e persigo as trilhas de meu destino.

Perco-me ali tantas vezes, que já não distingo

meu único suplício: quando me consolarás tu?

 

 

 

RAQUEL, 29

 

 

¿Hasta cuándo puedo confiar en tus palabras?

Me pides que busque la salvación en tu nombre,

que desfallezca, aguarde, vague, permita

que me olviden todos. Me ilusiono creyendo en la visión

de tus encantos, y acato atenta tus preceptos.

Para los desengañados, debo abrir amplias fosas.

Y entrego mi cuerpo a aquellos que lo necesiten.

Una vez más padezco, y aguardo, y me vuelvo

nada, un retazo, una sombra perturbada,

hasta que me canse e indague por los siete llantos

de mi alma exánime: ¿un día me consolarás?

Abro la mano y persigo los rastros de mi destino.

Me extravío allí tantas veces que ya no distingo

a mi único suplicio: ¿tú, cuándo me consolarás?

 

 

 

NATUREZA MORTA

 

 

Cadáveres em lágrimas,

nada mais é inverossímil em tua existência?

Três lances de escada antes da queda

rabiscavas de memória umas palavras finais.

 

Com quem falavas em teu caminho para o abismo?

Quais vozes feridas e estrangeiras

em teu drama rugiam, quase bêbadas, quase vozes?

Será tão imensa assim a eternidade que acaso não possamos nos encontrar em uma tarde de sábado?

 

Silêncio rochoso, enfurecido em seu casco carcomido,

que estranho vício a tudo converte em angústia?

Cadáveres prontos para uma ceia de dores,

soluçante cosmogonia debruçada no vazio, rios de insetos piolhos badejos mortos pulgas lesmas lentilhas podres latas de óleo – naufrágio queimante – ferrugem de faróis tumbas flutuantes – estupor diante do sangue das noites?

 

Há uma distância clássica entre o que pensas e o que és, trevas de atitude, batismo de cruzes, sofismas gastos, coro de anjos, sempre um mesmo porto de aventureiros,

lugar pouco provável para nosso encontro.

Ainda mais que não te revelas, entre cadáveres remando contra a morte,

restos de comida fratura de muletas górdio de fezes – de onde cai o tempo? – o verso se quebra a todo momento.

 

Onde estás? Onde moras?

Indago onde poderias ter nascido.

Habitualmente cercado de cadáveres,

tua noite será a grande indústria dos desvalidos?

 

Metáfora decaída, cantina de preços exorbitantes, estamos sempre a dois passos de algo, perdas acumuladas, rotina de miséria solúvel e pastel de ansiedades – será este teu mundo descomunal, tua bíblia que a tudo abrange mas que nada percebe em seu íntimo, o pandeiro da jovem esmeralda, mulheres tatuadas a estilete, garotos decepados por não portarem armas, um ovo de tartaruga por onde escapa um jacaré, a suprema glória da superficialidade, morte entre a pele e o abismo de sentidos, bandejas de bagos e uvas servidas em congressos de paz, artistas a vácuo, suplentes de alquimistas acidentados em trabalho, imbecis especulativos, baratas familiares, pêssego pitomba açaí tudo de ouro, morte eterna, será?

Em que oceano descomunal te escondes, poeta?

Disfarces: um amargor telúrico uma máscara dionisíaca um barroquismo ululante – ah formidável maneira de não estar no mundo.

Um demônio triste escreve um roteiro banal de arrependimentos.

 

Teus cadáveres já não te suportam.