LINA ZERÓN, ESTRELLA DEL PATIO TRASERO
Joaquim Moncks
Agradecendo a fraternidade e sua memória, referentes ao encontro de escritores e artistas plásticos, ocorrido em Montevidéu de 04 a 09 de abril de 2005, promoção do Centro Hispanoamericano de Artes, Ciencias y Letras - CHADAYL, faço seus registros. Na verdade, a mestra anfitrioa foi Raquel Martinez Martinez, coordenadora, que soube propor a agregação de todos. Competência e agilidade supriram eventuais lapsos. O amor à causa da paz produziu até uma coletânea internacional reunindo artistas plásticos e poetas.
Tudo sem nenhuma participação efetiva do governo, autoridades e agentes. Em nenhum momento se ouviu as suas vozes. No máximo, a cedência de locais para a realização dos atos do conclave, como sói ocorrer aqui no Brasil de Deus. Talvez porque, segundo dizem alguns ressabiados, o papel do Estado é tão somente fomentar as ações culturais!
Às organizações não governamentais cabe tocar o barco em matéria de cultura, sem nenhum aporte financeiro! Às favas os interesses representados!
Mas o toque de oralidade e graça ficou com o México, pessoalizado em Lina Zerón, poeta, articulista e editora. A ela coube a abertura do evento, no Palácio Legislativo, salão dos Passos Perdidos, materializada na leitura de um poema a que chamou “El patio trasero”, onde o mote foi a recente declaração do Ministro da Economia do Senhor George Bush, referindo-se ao México, América do Sul e quejandos:
“O pátio traseiro dos EEUU não é somente o México e, neste momento histórico, se estende até a Argentina!”.
Na voz da poeta, seu texto forte, pulsante, eivado de indignação, espada sobre a cabeça dos injustos, curiosamente permanece, dialeticamente, (em quem tem a alegria de a conhecer) o poético olhar agridoce sobre o mar dos excluídos: o compromisso maior com a causa de mudar o mundo, transfigurá-lo, fazendo da poesia um instrumento vário de justiça social.
Não como diria Álvaro de Campos, heterônimo filosófico em Fernando Pessoa, em nossa língua mater: “e o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu”. (poema Tabacaria, de 15 de janeiro de 1928). O personagem conservador era o Esteves, sem metafísica. Nele, o mundo se acaba, porque não pensa e não sabe agir. Para ele, as situações nasceram assim e devem permanecer tal qual.
Lina Zerón, escritora, é o pólo dialético assumido, a antítese que reconstrói, ou, se não o faz, ao menos produz a centelha para aquele que deseja compartilhar do mundo em que vivemos. São raros e preciosos estes espécimes. E o poeta tem de ser mestre na arte de persistir solidário na caminhada dos que sabem que tudo é efêmero, restando somente a matéria da vida transfigurada. Aquela que vive e se registra no coração do amado irmão, à risca do conceito bíblico. Só este sentir e o agir coerente pode vir a construir a sociedade da mais-valia, cooperativa de amor pelo terceiro, compadecimento e registro na mais perene voz do homem: sua palavra de ternura, a Poesia!
Amada e sensível escritora Lina Zerón, obrigado por tudo pelo que fecundaste em nós durante a breve estada no Uruguai. Permaneces em todos, mas em mim ficaste como estrela dos céus mexicanos pousada na terra dos negros, charruas e gaúchos formadores da raça. Que possas iluminar sempre os excluídos, inquietos e ansiosos. Só assim a vida se justifica prazerosa, útil.
Com estas pobres palavras, mas ornadas de pessoalidade, saúdo a tua existência em nosso meio associativo, ansiando por rever a luz e o anfiteatro que criamos para além da precariedade da vida. Como bem podes ver, tua pessoa é preciosa fonte de inspiração, de saudade enrodilhada em posição fetal, aninhada no colo de quilométricos espaços.
Que os teus queridos em México e em outras terras possam sempre te saber viva, ó estrela do Patio trasero! Estrela aportada no rincão meridional, no sul do mundo, o meu gênio claudicante de fé chora no teu canto, charla, Pátria!
Mas também não me considero o “Esteves, sem metafísica”. Faço a minha parte. Reconstruo o mundo pela palavra, em tudo aquilo que ele possa ser hostil ao meu espírito.
Os políticos, os donos do poder, que façam o resto no plano da realidade. A mim cabe vaticinar os desejos de mudança, gerir na alma humana a geriatria dos fatos, que morrem e se renovam. Desafio para aqueles que querem efetivamente mudar o mundo.
De resto, é o coro dos anjos sofridos.
Do livro inédito OVO DE COLOMBO, 1999 / 2005.
Oficial PM, na reserva. Advogado. Ativista cultural. Agente Literário. Poeta. Declamador. Conferencista. Ensaísta. Nascido em Pelotas, em 29Set1946. Deputado constituinte à Assembléia Legislativa do Estado do RS, em 1989, presidiu a Comissão Temática de Educação, Desporto, Ciência, Tecnologia e Turismo. Seis livros individuais, desde 1973, no gênero Poesia. Tudo o que publicou em prosa está disperso em mais de uma centena de antologias e coletâneas. Vice-presidente da Academia Sul Brasileira de Letras, de Pelotas. Da Academia Literária Gaúcha - ALGA, da Sociedade Partenon Literário, da Casa do Poeta Riograndense – CAPORI e da Estância da Poesia Crioula - EPC, todas sediadas em Porto Alegre, capital do RS, onde reside. Em outubro de 2003, assumiu a Coordenação das Casas de Poetas do Brasil – POEBRAS NACIONAL, entidade líder do associativismo literário, com 55 sedes municipais localizadas em doze estados-membros da Federação Brasileira. Edita o Suplemento Literário OFFICINARIUM – AMOR & INCLUSÃO SOCIAL, do Jornal RS LETRAS. Mora em Porto Alegre, RS, Brasil. Endereço eletrônico: joaquimmoncks@brturbo.com.br
EL PATIO TRASERO
“Tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”
(Porfirio Díaz, expresidente de México, 1900)
Nunca lo supe pero ahora dicen que nací en un patio trasero
más viejo, mas antiguo que los árboles mas altos del norte
con más historia que la siniestra casa blanca de enfrente.
Aquí la hierba se cultiva con indigno y contento desorden
para que allá la consuman y disimulen sus conciencias
mientras sus hijos empuñan armas en los colegios
y sus padres empuñan armas en los mercados,
mientras las madres pintan de sal las bolsas negras
y el amo de casa practica golf cada mañana.
Vivimos en el patio trasero más grande del mundo
pero no conocemos el miedo del ántrax
ni el detector de metales para niños,
ni el miedo silenciado con drogas militares
ni arco iris de alarmas sonando en la noche
ni los aviones, mortíferas aves, son escoltadas por Rambos.
En nuestro patio trasero crece el maíz sin pesticidas
los huevos son de gallo y de gallina,
las vacas engordan con forraje y no con las hormonas.
Poseemos flores, remedios, recursos naturales
y un sin fin de tradicionales comidas:
mole, arepas, asados, moros con cristianos, cara pulcra,
postres de frutas frescas y frutas cubiertas de azúcar,
dulces de coco, de leche, membrillo, guayaba…
Y uno que otro Mac donals.
Hay rosas, claveles, azucenas, gladiolas,
hortensias, margaritas y para los novios: azares;
Y en años pasados la bella amapola que ahora es prohibida
porque el amo del norte la usa para hacer drogas finas.
Remedios son la Ruda, romero, la cola de caballo, los pelos de elote,
el mate y para los enamorados: el toloache.
Tenemos ríos, lagos, mares de verdes y azules tonalidades,
playas de arena dorada, blanca y morena.
Volcanes, bahías, ensenadas, cascadas, desiertos,
ojos de agua, cenotes, selvas y bosques.
Ciudades prehispánicas, coloniales, modernas, modestos pueblos
y grandes zonas industriales.
Oro, plata, petróleo, hierro, cobre, uranio, la mano creadora del artesano y brillantes cerebros.
Aquí no se fabrican poblados enteros con jardines artificiales
habitados por rostros de plástico con dinero de plástico
que piden para llevar su comida de plástico en dogui bags
Pobres vecinos del norte que dependen para vivir de los recursos
de este hermoso, vasto y altivo patio trasero.
Lina Zerón
México
Abril 2005
|